Ederson Marqui Erig
Neste momento busco uma breve reflexão em torno da clínica psicanalítica das psicoses. Mas antes desta difícil tarefa, cabe lembrar o convite de Lacan no qual o psicanalista não deve recuar diante da psicose. Acredito que este seja o requisito fundamental desta clínica.
Em seu livro História da Loucura, Foucault refere o ponto em que a loucura deixou de ser algo temível, tornando – se objeto, mas com um estatuto singular:
antes ela designava no homem a vertigem do deslumbramento, o momento em que a luz se obscurece por ser demasiado brilhante. Tendo – se tornado agora coisa para o conhecimento – ao mesmo tempo o que há de mais interior no homem, porém de mais exposto a seu olhar – ela representa como que a grande estrutura de transparência; o que não significa que pelo trabalho do conhecimento ela se tenha tornado inteiramente clara para o saber, mas que, a partir dela e do estatuto de objeto que o homem lhe designa, ela deve poder, pelo menos teoricamente, tornar – se inteiramente transparente ao conhecimento objetivo (FOUCAULT, 2000,p.456 – 457).
Neste momento viso apontar para isto que a loucura denuncia, seja na dificuldade técnica , devido sua amplitude, diversidade, e os fatores subjetivos que não podemos descartar, pela riqueza de seu conteúdo. Sendo assim, há um ‘instrumento’ fundamental a todo analista, a escuta. Esta escuta que parece irrelevante ou mesmo banida do discurso científico contemporâneo. Há então o psicanalista, este sujeito suposto saber para o neurótico e o secretário do alienado na posição transferencial com o paciente psicótico.
Antes de adentrarmos nestes aspectos fundamentais para a clínica psicanalítica das psicoses, é importante uma breve explanação deste sujeito, com base nos ensinos de Freud e Lacan, estes que clarificaram os caminhos para uma possível abordagem terapêutica com estes pacientes, que antes eram isolados atrás dos muros dos hospitais.
Neste ponto é fundamental diferenciarmos a neurose da psicose, no que tange a sua diferença estrutural inicialmente proposta por Freud. Segundo Souza (1999, p. 1 – 2):
Se a defesa se dirige contra um fragmento do id, contra uma moção pulsional e se ocorre aí uma falha parcial, temos, como produto, a neurose. Ao contrário, se a defesa se levanta contra um fragmento da realidade e se é bem – sucedida em seu intento de rejeitá – la, o resultado desta vez é a psicose.
Ao fazer uma releitura de Freud, Lacan introduziu um novo direcionamento em relação à clínica das psicoses. Ao mencionar a foraclusão do Nome – do – Pai, um dos pontos fundamentais de seu ensino.
Lacan definiu a foraclusão como uma falha, uma ausência no nível do Outro: a ausência de um significante, o “Nome – do – Pai”, e de seu efeito metafórico. Esse acidente, diz ele, confere á psicose “sua condição essencial, com a estrutura que a separa da neurose” (SOLER, 2007, p.12).
Sendo que na Neurose temos um quarto elemento, um sintoma, o pai -nomeante. Já na psicose há uma tentativa do sujeito ser este sintoma. Quando isto funciona , não há o delírio, quando falha, temos então, o delírio (JULIEN , 1999, p. 49).
Ao fazermos uma breve distinção entre as duas estruturas. Ao contextualizar o discurso científico contemporâneo, guiado pela inibição do sintoma, através da medicalização, e, portanto, buscando um ideal comportamental, o ‘tratamento do igual para todos’, sejam nos tratamentos em Ambulatórios Psiquiátricos, Hospitais, CAPS, Residências Terapêuticas, deixando de lado o aspecto singular de cada individuo. E na clínica das psicoses isto não parece diferente, buscando através da medicação ‘controlar’ os delírios, as alucinações, mas ‘controlar’ a tal ponto chegando a calar este sujeito. Calando este discurso que nos parece no mínimo, estranho desconcertante e até vulgar em alguns momentos. Como expresso por Schereber com seus neologismos, em seu delírio de emasculação e na sua relação com Deus.
Enfatizando a “falha estrutural” na psicose, a partir dos três eixos: o simbólico (castração), imaginário (libido e imagens) e o real (… realidade psíquica, fantasias …). E nesta falha estrutural denunciada pela foraclusão do Nome – do – Pai, o psicótico busca algo que o alivie desta presença perturbadora e hostil causada pelos fragmentos da realidade, utilizando – se do sistema delirante para tal fim. “O sistema delirante é uma construção defensiva, terceiro termo do qual se vale o psicótico para escapar à ameaça de ser engolfado pelo gozo do Outro” (SOUZA, 1999, p.66).
E com isso o analista através da escuta deste material, a formação delirante do paciente, e conforme descrevi no parágrafo acima, isso que é visto como o conteúdo patológico pelo discurso científico atual, e digno de ser medicado / anulado , pode ser uma tentativa deste sujeito de se reaver com sua realidade. Conforme Freud (1911, p. 78) “A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução”.
O trabalho do delírio constrói uma metáfora de substituição. O “serás a mulher”, que Schreber realiza, entra no lugar da significação fálica faltante. Essa idéia de suplência significante é algo que Lacan nunca deixou de acentuar, passando do Nome – do – Pai, no singular, para os Nomes – do – Pai , no plural — Nomes – do – Pai que designam ocorrências diferentes de uma única função —, e, por fim, considerando o próprio Nome – do – Pai como um elemento suplementar do caráter nodal dos elementos imaginários, reais e simbólicos (SOLER , 2007, p. 19 – 20).
Ao contrário do trabalho clínico com pacientes neuróticos, o analista deve ocupar o lugar de secretário do alienado, ou seja, de não – saber, com isto possibilitando um espaço para o saber do sujeito, utilizando – se da escuta analítica, como um meio para o trabalho clínico com estes pacientes, acompanhando o sujeito a partir de sua fala. Segundo Freud (1911, p. 45) ao mencionar aspectos da técnica psicanalítica a ser adotada para com o paciente psicótico afirma:
(…) temos apenas de seguir nossa técnica psicanalítica habitual — despir a frase de sua forma negativa, tomar o exemplo como sendo a coisa real, ou a citação ou glosa como a fonte original, e encontramo –nos de posse do que estamos procurando, a saber , uma tradução da maneira paranóica de expressão para a normal.
O psicótico busca através das alucinações, das formações delirantes, uma significação, algo que o incluísse no campo linguagem. Segundo Souza (1999, p. 67):
Uma significação que lhe possibilitasse construir uma linguagem, uma filiação, não referida ao Pai simbólico, ao significante, mas a um pai ideal, que sem estar desertado da dimensão simbólica, é fundamentalmente marcado por sua dimensão imaginária, pequeno outro idealizado do sujeito e ponto de referência em torno do qual uma nova ordem se estabelece.
Eis aqui um breve apanhado dos aspectos que envolvem a clínica psicanalítica das psicoses, tais como a escuta, a posição do terapeuta e o quanto a psicanálise pode auxiliar, principalmente em relação à escuta desse sujeito que foi calado pelos muros dos hospitais antigamente, e hoje em alguns momentos, permanece calado, ou mais uma vez excluído do discurso pela medicação, inibindo assim os delírios, as alucinações, não possibilitando a este sujeito uma borda, mas sim uma contenção, seja pelos muros, ou pela medicação, impedindo que este crie um laço social, isolando – o da linguagem. Neste ponto a psicanálise pode ser um diferencial, pela via da escuta psicanalítica este sujeito pode vir a se escutar e ai, encontrar uma borda, uma ancoragem, um novo significante.
Mas isto não é uma tarefa fácil para o analista, ou mesmo para equipe multiprofissional que tem contato com estes pacientes. Estamos falando ai de algo mais, do desejo, o desejo do analista, e a partir deste desejo articulado, investido de uma condição impar, e assim poder estabelecer uma transferência com todas as particularidades aí presentes.
Em se tratando desta clínica o analista também se depara com a falta, o fracasso, ou o recuo. Onde o sucesso esta em cada pequeno detalhe, na escuta deste sujeito, que foi foracluido da linguagem. E aqui volto a mencionar, o dito de Lacan de que o analista não deve recuar diante da psicose. E o sucesso desta clínica está em jamais recuar.
Referências Bibliográficas:
FOUCAULT, Michel. História da Loucura: na idade clássica. São Paulo:
Perspectiva, 2000.
FREUD, Sigmund. Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia (Dementia Paranoides) (1911). In: _____. O caso Schreber artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (As obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XII).
JULIEN, Philippe. As psicoses: um estudo sobre a paranóia comum. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.
SOLER, Colette. O inconsciente a céu aberto da psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
SOUZA, Neusa Santos. A Psicose: um estudo Lacaniano. . Rio de Janeiro: Revinter, 1999.


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