Ao nos remetermos ao passado do indivíduo, a partir do seu nascimento, onde este estabelece a relação com a mãe, primeiramente, nesta relação simbiótica mãe – filho, Kalina (1988, p. 46 – 47) afirma que:
Nesta fase, e durante os primeiros anos, a criança necessita de dedicação, de amor e de cuidados que lhe permitirão desenvolver – se e chegar ao fortalecimento do seu Eu. Na medida em que recebe melhor qualidade de amor, respeito por ela mesma e um bom conceito de limites entre um e outro, vai desenvolvendo dentro dela a gênese de uma conduta madura.
Caso nessa etapa haja uma falha em dar à criança este continente necessário, poderão provocar alterações das relações objetais, interferindo assim na constituição de um Eu maduro.
A fragilidade egoica consiste basicamente na incapacidade para esperar e suportar a dor. Quando se sente urgido por alguma necessidade, o adicto se apressa em buscar sua satisfação; não agüenta qualquer carência, porque não acredita na sua capacidade para suporta-lá. Enquanto ele introduz substâncias químicas para produzir a negação maníaca da realidade dolorosa, a pessoa amadurecida que aspira ao verdadeiro fortalecimento de seu ego introduz conhecimentos, desenvolvendo sua consciência e sua tolerância á espera (BENTO, 1986, p. 33).
Ao pai cabe o papel de intervir, ‘cortando’ o cordão umbilical ente a mãe e o bebê, ao passo que se o pai fizer ‘vista grossa’ permitindo que a mãe use o filho para aplacar sua neurose, numa relação explorador – explorado, posteriormente esta conduta é adotada pelo toxicômano, onde parte do seu Ego faz ‘vista grossa’ para suas atuações aditivas.
A posição do pai ausente, ou presente – ausente, de possuir pênis, mas não falo, em termos lacanianos, não significa que ele não pertença a este conjunto simbiótico e já veremos, nos processos dos tratamentos, como ele nega ou sabota, sistematicamente, qualquer decisão da equipe terapêutica de produzir um corte no “cordão umbilical psicológico” que existe entre o adicto e sua mãe, porque esta estabilidade paterna também está sustentada pelo mesmo jogo (KALINA, 1988, P. 49).
O adicto ao possuir um Ego frágil e vulnerável, frente às dificuldades, incapaz de enfrentar-se com a realidade, incapaz de admitir suas limitações. Segundo Kalina (1988, p. 44) ”Refiro-me á fragilidade das pessoas, a daquelas que sofreram grandes frustrações que lesaram seu Eu, debilitando e distorcendo suas possibilidades de funcionamento normal. Estas pessoas têm mais problemas para aceitar suas limitações, sua finitude”.
Ele então “enche a cabeça” com um monte de coisas que vem reforçar ainda mais seu sistema de excesso: por um lado, o aspecto de imensidão das derrotas e decepções gera uma auto – imagem extremamente desvalorizada e por outro, o indivíduo tem uma concepção de si inteiramente megalomaníaca – apesar de pueril e ingênua – desgastada pela dúvida, e que consequentemente precisa ser reativada á medida que o sonho acordado deixa de ser operacional [notemos a importância da droga como instrumento desta reativação, caso o indivíduo a encontre em seu caminho] (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 120).
Neste impasse a droga vem como a solução mística/religiosa, realmente como muitos usuários a veem, a idolatram e a veneram, pois como um passe de mágica, “resolve” os problemas, criando – se um mundo de fantasia (alienação), o mundo do “amortecimento” onde nesta dimensão não há espaço para a dor, para as desilusões e visa o Gozo ininterrupto em que a satisfação reina.
Segundo Beneti (1998, p. 221) “este menciona que a Toxicomania é o surgimento de um novo modo de gozar, um gozo Uno, não sexual, este vê a droga não como uma formação de compromisso, nem do inconsciente, muito menos como um sintoma, mas sim, como uma ruptura”.
O sujeito ao ter um repertório reduzido em lidar com as situações que enfrenta durante a vida; sua forma de lidar com a raiva, ansiedade, com o medo e com a frustração, pode então buscar o tóxico, fazendo suplência frente ao mal – estar, tamponando a falta.
As únicas possibilidades restantes são: ou o deslocamento, pelo menos do desejo, ou a repetição. Repetição da necessidade e necessidade de repetição. Ou a fusão que, na ausência da loucura, leva a algum lugar em direção à toxicomania (OLIEVENSTEIN, 1985, p.107).
O adicto impulsionado por sua mania, e pela compulsão a repetição, não muda seu “repertório adictivo” como uma espécie de ato masturbatório. A este respeito Rosenfeld cita Freud em sua carta a Fliess datando de 1897 onde “ele admite que a masturbação é a aficção primária e que as outras aficções, tais como pelo álcool, pela morfina, pelo fumo etc., somente entram na vida como substitutos ou equivalentes dela” (FREUD, 1950 apud ROSENFELD, 1968 , p. 245).
A repetição relaciona – se á falta, e portanto, ao objeto (a). Na repetição o sujeito castrado busca o controle da ausência. Porém, também é próprio da repetição o fracasso da tentativa de reencontrar o perdido. Assim a psicanálise diz que não há repetição total. A repetição não é uma reprodução (Gianesi, 2002).
Conforme aponta, Kalina (1988, p. 50) sobre o adicto “(…) quando encara sua vida, não tem forças para enfrentar as barreiras da realidade externa, e, então, recorre às drogas, que operam como uma força extra”. Assim o indivíduo aliena-se passando a viver no “seu mundo” remetendo justamente ao narcisismo. Para Freud (1915, p. 141) “quando a fase puramente narcisista cede lugar à fase objetal, o prazer e o desprazer significam relações entre o ego e o objeto”.
Para o ego do prazer, o mundo externo está dividido numa parte que é agradável, que ele incorporou a si mesmo, e num remanescente que lhe é estranho. Isolou uma parte do seu próprio eu, que projeta no mundo externo e sente como hostil. Após esse novo arranjo, as duas polaridades coincidem mais uma vez: o sujeito do ego coincide com o prazer, e o mundo externo com o desprazer (com que anteriormente era indiferente) (FREUD, 1915, p. 141).
“Para situar o excesso deste ‘outro mundo´ podemos dizer que ele não se contenta em alucinar a realidade, ele também superalucina o imaginário”(OLIEVENSTEIN, 1985 , p. 121).
Reconhecemos, da mesma maneira , que o adicto não faz outra coisa que transladar para o campo de sua vida individual o tipo de relações alienadas que imperam na sociedade a que pertence. Só pode subsistir se mantiver a dissociação, o submetimento e a desigualdade de algumas de suas partes ‘em benefício’ de outras. Em vez de ser sua expressão mistificadora ou distorcionante, o drogadicto é a versão fiel, literal, do mundo onde vive. Ele é esse mundo, a exposição sem simulação e sem consciência das contradições de sua ideologia. Sua existência testemunha claramente o que são as relações de dependência e exploração no seu duplo sentido, pessoal e coletivo. O adicto exemplifica finalmente o comportamento alienado com uma brutalidade somente comparável ao espetáculo da fome e da miséria. Mas, em contraposição ao miserável e ao faminto, o toxicômano celebra sua alienação. Onde dizemos autodestruição, ele diz paraíso, ao que chamamos de dependência, ele chama libertação (KALINA; KOVADLOFF, 1980, p. 18).
O sujeito ao utilizar as substâncias químicas, visa encontrar nelas um ‘estabilizador de humor’, no intuito de mediar períodos depressivos e períodos maníacos, buscando no tóxico a euforia (mania) ou a sensação de apaziguamento (depressão).
O toxicômano apresenta mecanismos maníaco – depressivos que se mostram, aliás, reforçados pelas drogas e , por conseguinte, modificados pela intoxicação. O ego do toxicômano é fraco e não dispõe de força para suportar o peso da depressão e, por isso, recorre, com facilidade, aos mecanismos maníacos, mas só alcança a reação maníaca com o auxílio das drogas, de vez que se faz necessária certa força do ego para produção da mania (ROSENFELD, 1968, p. 149).
Segundo Kalina (2001, p. 77) ao descrever a “Síndrome de Popeye” onde o indivíduo busca a “droga/espinafre” para de alguma forma canalizar, por intermédio das identificações projetivas, uma fantasia comum, neste caso uma “onipotência enlatada”. O autor ao referir este conceito, fazendo uma referência ao desenho animado, compara o adicto ao clássico personagem que ao se encontrar em apuros faz uso do espinafre/droga, para poder lidar com os problemas/realidade, onde ao fazer uso da droga, esta reforça seu pensamento mágico onipotente, acabando assim por escravizar-se a esta fantasia.
Ele busca de maneira excessiva se reassegurar, e vive a rejeição de modo exacerbado, abstraindo o caráter objetivamente lógico de tal ou qual procedimento. Na realidade esta desigualdade original traduz – se primeiro em desigualdade afetiva: uma desigualdade que se manifesta no sentimento de derrota do individuo, seja ele objetivamente talentoso ou não, sem levar em conta as riquezas de suas possibilidades (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 115).
Verifica – se que por não ter suas necessidades narcísicas satisfeitas, cai em depressão por não tolerar sua realidade, os problemas, as dificuldades e frustrações que surgem no dia a dia de sua existência, sentindo – se incapaz, fraco e frágil. Rosenfeld (1968, p. 152) busca explicar este dilema:
[…] onde estes fatos não se devem somente a regressão oral, mas á divisão de seu ego e de seus objetos, ligando – se a seu ego frágil, onde projeta nos objetos externos partes boas a más expelidas do eu, comportando – se como se fosse duas ou mais pessoas diferentes ,durante sua análise e na sua vida externa, contribuindo para sua atuação excessiva durante o tratamento psicanalítico.
Conforme Beneti (1998, p. 219):
A freqüência dessa constatação nos levou a hipótese de que a toxicomania ou o consumo regular de drogas poderiam estar hoje se constituindo em uma solução psicótica contemporânea, uma “suplência química”, uma verdadeira estabilização pela droga para o mal – estar decorrente, nesse tipo de sujeito, do gozo do Outro.
É muito comum verificar nestes pacientes, condutas impulsivas, seja direcionada para o uso de substâncias como para atos de auto, ou hetero agressividade, ocupando assim posições móveis, muitas vezes imprevistas e até mesmo uma conduta marginalizadora, manifestas em forma de atuação. Podemos encarar a toxicomania como a patologia do Ato.
A repetição da atuação, drogar-se, por parte do adicto, onde este impossibilitado de pensar, não consegue recordar, nem consegue elaborar seus sentimentos. Neste momento impedido de lidar com suas tensões, frustações frente ao traumático, tendo assim que reatualizá-lo de modo compulsivo e a única forma que tem para lidar com isto é, através da atuação (BENTO, 1986, p. 82).
A linguagem é sentida por esses pacientes como algo destrutivo, perseguidor, muitas vezes. “A função da linguagem é, por sua vez, sentida como desmesuradamente restritiva e vivida como uma armadilha […]” (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 119).
Isto gera tamanha angústia, que o indivíduo não tem outra saída a não ser o ‘acting – out’, quando sua capacidade normativa está perigosamente desvalorizada e ele não consegue mais reconhecer a função real das coisas e das pessoas. Em outras palavras, quando ele está praticamente destituído de sua capacidade de orientação (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 118 – 119).
O toxicômano com seu repertório de ação e com seus estereótipos verbais, evidencia o efeito de uma dialética e enfatizando assim a sua relação com a linguagem. Melman (2000, p. 67) relata sobre o tratamento desses sujeitos:
Se efetivamente a toxicomania se instalou no paciente a partir do que tenha sido sua relação com a linguagem, temos plenas condições de ver que por isso mesmo a articulação desta dialética em uma relação transferencial é, eventualmente, suscetível de vir a denunciar o que assim nele se encontrou abalado, reduzido, fustigado pelo uso, pela adoção desta solução que é a droga.
Não podemos negar que viver é difícil, por diversos momentos passamos por situações inusitadas, seja pelo abandono de um amor, por uma perda ou dificuldade financeira e por diversas frustrações que se tornam tão comuns nos dias de hoje. Assim afeta nossa forma de “estar – no – mundo”, causando por vezes, desconforto e, por uma diversidade de fatos, somos abalados e nossas crenças desconstruídas, e sonhos tornam – se irrealizáveis. Enfim, a busca pela felicidade nos é tão penosa, tão árdua que parece estar num patamar tão distante e inalcançável, devido às constantes oscilações pelas quais passamos durante nossos dias na Terra. Para Kalina e Kovadloff (1980, p. 10):
O reconhecer que o sofrimento tem uma função importante na existência humana não vai nos levar ao masoquismo, mas á coragem necessária a não se dissolver no imediato apaziguamento indiscriminado dos nossos desejos.
Cabe a cada indivíduo, encontrar na falta, não um fim, mas um meio, de forma a proporcionar – lhe algum movimento, ao invés da passividade. E com isso lidar com o mal – estar.


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