Após uma breve abordagem do sistema familiar, podemos adentrar no contexto familiar do Toxicômano. Na Contemporaneidade, percebemos que assim como o toxicômano sua família também fica doente, mediante as situações e vivências que esta enfrenta no seu dia a dia. Para entender este modo de relação, faz-se necessário analisar a dinâmica familiar e sua constituição.
“Onde existem adictos, encontramos famílias nas quais, qualquer que seja a configuração que tenham, está presente a droga ou modelos adictivos de conduta, como técnica de sobrevivência por um ou mais membros deste grupo humano” (KALINA, 1988, p.27).
Ao mencionar uma conduta aditiva no contexto familiar não precisa, necessariamente, ter a droga ou a presença desta no âmbito familiar, mas fatores como: o jogo, comida, trabalho, sexo, também podem ser considerados componentes adictivos.
E nesse contexto encontra-se o indivíduo, o adicto. Para Kalina (2001, p. 55) “[…] o adicto é alguém que cumpre um ‘pacto criminoso’ do qual participam ele, a família e a sociedade”.
O Toxicômano como enfatiza tanto Kalina quanto Olievenstein, onde o adicto é visto como “o eleito” pelo primeiro, ou como “o idiota da família” pelo segundo, servindo de bode expiatório, onde o sacrifício de um é necessário para manter esse sistema em equilíbrio. “É preciso voltar a esta noção, pois a adaptação á lei familiar, real, simbólica e imaginária passa por várias fases, com muitas idas e vindas, até que se esgotem as referências capazes de manter o statu quo ante” (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 117)
Para Kalina (1988, p. 29 – 30) “Tudo isto culmina com o “pacto criminoso”, que surge quando só a morte pode equilibrar – calibrar o contexto familiar e salva-lo, através do sacrifício de um”.
Segundo Olievenstein (1985, p. 103) ao descrever o toxicômano como o bode expiatório enfatiza, segundo seu ponto de vista:
A família admite e tolera aquilo que a sociedade não admite, mas só pode fazê – lo em um sistema adequado. Para esta adequação funcione,quando é preciso suportar algo insuportável, é necessário que haja excreção, rejeição, produção de detritos (…) ela reintroduz no seio da família uma outra adequação, vivida como dolorosa, dramática e/ou patológica, ou seja, ela cumpre o papel que nas civilizações antigas cabia ao bode – expiatório, e que hoje em dia, no interior de sistemas muito mais policiados e normativos, cabe àquele que Jean Paul Sartre chamou de o “Idiota da Família”.
Nestas famílias o filho passa a ser depositário do núcleo melancólico da mãe, tendo a função de satisfaze – la. Segundo Kalina (1988, p. 47) “a mãe ao apresentar sintomas depressivos, busca regular sua auto – estima no filho, atendendo – o possessivamente, não por necessidade deste, mas porque ela necessita dele ou, então o abandona”.
Para Olievenstein o toxicômano devido ao seu imediatismo e à dificuldade de lidar com a falta, relação que se dá nos primórdios de sua constituição psíquica, na sua relação dual com a mãe enfatiza:
Podemos até afirmar que, para uma mesma mãe, o filho mais dependente, aquele que permanece mesmo que minimamente “fusionado”, é infinitamente mais sensível que os outros a todo tipo de rejeição, pois ele a vive como ameaçando romper laços tão indispensáveis ao que sente servir – lhe de identidade (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 115).
Ao passo que o pai presente – ausente faz “vista grossa”, além de fazer seu papel (função paterna), buscando intervir nesta relação simbiótica mãe – filho. “Ademais, o pai, quando satisfaz adequadamente as exigências do seu papel, interfere na díade mãe-filho, promovendo o acesso á ordem simbólica, futura organizadora da linguagem” (KALINA, 2001, p. 58).
O pai muitas vezes encontra-se ausente, fato evidenciado na procura de ajuda (tratamento), sendo na maioria das vezes a mãe que busca ajuda para o filho, o pai assume um papel secundário nesse triângulo, apresentando uma conduta homossexual, passiva, falhando assim na sua função, no interdito desta relação mãe – filho.
Para Melman (2000, p. 45- 46), “[…] quando o pai real, o pai presente na família, é demasiadamente desprovido, desmuniciado, em falta com relação á referência fálica para poder funcionar como aquele que seria capaz de introduzir seu produto na cadeia simbólica”.
Sendo assim o toxicômano encontra – se em falta, na falta do objeto que comanda o gozo, ou seja, o falo. Ao se deparar com esta falta simbólica passa ao ato, e daí uma série de consequências para o indivíduo, para sua família e para sociedade. Através da passagem ao ato, encontra uma forma de manter sua virilidade, de deter o falo, ter com esse uma relação, por mais breve que seja.
Quando o filho apresenta uma relação de amor para com a mãe e de ódio e hostilidade para com o pai, nos remete ao mito de Édipo, em que o filho mata o pai e desposa sua madrasta Jocasta, ao descobrir que Jocasta é sua mãe, o personagem mítico fura os olhos, e Jocasta suicida – se, ambos invadidos pelo sentimento de culpa.
Neste período da organização genital fálica da criança, esta sente a ameaça de castração, onde a libido e a energia sexual passam do prazer meramente sexual para os investimentos libidinais futuros para a vida do indivíduo, investimentos visando à obtenção de prazer.
Ao mencionar a importância do Complexo de Édipo para a vida do indivíduo:
[…] o Édipo nos coloca, em relação ao pai, em uma posição de ambivalência privilegiada, exemplar, quer dizer, mista de amor e ódio. E sabemos também que esta posição nos acompanha em nossa vida cotidiana, para além deste personagem, desta figura imediata constituída pelo pai. Ela vai marcar nossa relação com o poder, com as figuras de poder, e mesmo com as figuras educadoras, com as figuras do mestre (MELMAN, 2000, p. 57).
Para Kalina (1987, p. 54) “O filho, antes, o busca permanentemente de forma direta ou indireta através de atuações, nas quais as ‘autoridades policiais ou médicas’ (substitutos paternos) devem freá – lo”.
Devido a todos os fatores expostos até o momento sobre a família do toxicômano, verifica-se, no trabalho com as famílias desses pacientes, uma confusão, uma grande falha simbólica e, por conseguinte, uma falha na linguagem, mediadora das inter – relações.
Segundo Olievenstein (1985, p.119) “a função da linguagem é, por sua vez, sentida como desmesuradamente restritiva e vivida como uma armadilha; e o individuo tenta elimina-la do sistema familiar”.
O toxicômano constitui uma personalidade frágil, na qual o não, ou seja, a lei, o interdito, o “isso, eu não posso”, não é tolerado. Isso se manifesta no seu relacionamento com seus familiares, onde não há linguagem ou se há, é falha, abrindo espaço para a atuação, justamente por esta incapacidade de receber o não, que configura no campo do interdito, impondo – lhe uma espera, algo inadmissível para o adicto, ou seja, privá – lo de seu gozo.
O não, seja transitório ou definitivo, implica espera, e esse é um conceito que todo o grupo familiar deve chegar a aprender, que pode ter uma conotação positiva e nem sempre catastrófica ou alergênica, como tem para eles. Vale dizer que dispõe da palavra não, mas carecem da experiência da negação, entendida como aceitação de limites (KALINA, 2001, p.59, grifo do autor).
A partir deste ponto após uma breve análise do aspecto social e da família, agora passamos a centrar o trabalho no paciente adicto e sua relação com a subjetividade.


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