Contexto atual e seus padrões
Na sociedade cujo padrão imposto predomina a cultura do narcisismo em que o homem deve necessariamente ser o mais bonito, o mais forte, o mais poderoso, financeiramente falando, e a mulher deve ser sinônimo de beleza, juventude, saúde, charme, as pessoas recorrem, desesperadamente, a academias, cirurgias plásticas, aparelhos para alcançar a forma ideal com o mínimo de esforço possível, suplementos, anabolizantes, produtos que prometem milagres, roupas e adornos dos mais variados tipos, formas e brilhos.
Além disso, essas pessoas, ainda buscam profissões nas quais possam ser bem sucedidas e obter sucesso de forma rápida e fácil, fundando assim a sociedade do consumo, na qual o indivíduo não é visto ou admirado pelo que é, mas pelo que tem ou pelo que consome.
[…] podemos afirmar que o modelo de belo veiculado pela mídia – cultura perde as características de modelo ideal cuja função seria a de mediar as relações entre sujeito e o mundo, e passa a operar como um fetiche. No âmbito do fetichismo, o ato de recusa resulta no mecanismo de clivagem do eu. De acordo com Freud, frente ao conflito colocado entre as exigências pulsionais e as proibições da realidade externa, o sujeito ‘opta’ por não ceder nem a uma nem a outra integralmente (MAIA, 2005, p. 85).
O dinheiro é peça chave e fundamental nessa época de globalização, pois o financiamento “das exuberâncias” e dos produtos depende dele. A lógica desse mercado de consumo gira em torno do preço, do valor, da cifra, na qual o foco principal é o consumo de objetos, gadgets.
[…] gadgets que cumprem a função de assegurar um gozo para todos e, conseqüentemente, de assegurar a manutenção de zonas nas quais o sujeito viva como todos os demais: todos consumindo grifes, carros importados, notebooks e celulares (LIMA;JUNIOR, 1998. p.61).
Nesse novo enfoque social, o sujeito vive num eterno estado de insatisfação, em outras palavras, o ideário atual é sermos eternos insatisfeitos, ávidos em busca de prazer e esse ‘suposto prazer’ encontra-se no consumo, que se torna algo inatingível, deixando então os indivíduos em falta, num estado de insatisfação que, ao sujeito contemporâneo, é inadmissível. Segundo Lima e Junior (1998, p. 61) pode – se constatar que:
A promessa imanente á ideologia da globalização é a realização do self, a transparência do indivíduo que consome os gadgets contemporâneos: objetos de brilho efêmero que se enfileiram nas prateleiras do mercado como uma rede de existência, ofertando ao sujeito a consistência de um indivíduo. Dessa forma, os gadgets revelam a própria estrutura da globalização. Trata-se de produzir objetos que saturem o mercado. Com efeito, sustentados na utopia uniformizante, esses objetos visam realizar o impossível e, conseqüentemente, resolver a divisão subjetiva: o acesso ao gozo, ao brilho do efêmero, a todos e por igual.
A espera, a passagem do tempo ou o fato de aguardar algo, torna – se inadmissível para o homem moderno, porque a predominância do imediatismo é brutal. Na sociedade onde se constata que “tempo é dinheiro” e que o dinheiro é a via para o consumo, as necessidades básicas do indivíduo como as ações comer e dormir, tornam – se supérfluas, em prol da atividade, leia-se produtividade, como Marx já nos demonstrou com a mais – valia, base do lucro do sistema capitalista.
Ao comprar a força de trabalho do operário e ao pagá-la pelo seu valor, o capitalista adquire, como qualquer outro comprador, o direito de consumir ou usar a mercadoria comprada. A força do trabalho de um homem é consumida, ou usada, fazendo – o trabalhar, assim como se consome ou se usa uma máquina fazendo – a funcionar. Portanto, o capitalista, ao comprar o valor diário, ou semanal, da força de trabalho do operário, adquire o direito de servir – se dela ou de fazê – la funcionar durante todo o dia ou toda a semana (MARX, 1932, p. 88).
Segundo Quinet (2005, p.74) ao fazer uma breve referência entre Capital e Libido, segundo a economia psíquica do sujeito revela:
A psicanálise nos desvela que, de fato, o capital é tratado pela libido do sujeito. Mas, o capital só é libido se esta for contabilizada e, como veremos, ela o é. O time is money, que evidencia a contabilização do tempo do trabalho, escamoteia a libido em causa – o gozo desvelado por Marx com o conceito de mais – valia. Com Freud, podemos dizer que capital é libido.
“Portanto, a felicidade possível na civilização que está organizada pela renúncia ao gozo pulsional, depende exclusivamente da forma como cada um resolva, do ponto de vista econômico, seu balanço libidinal” (FERNÁNDEZ, 1998, p. 135 – 136).
“O capital da droga é, talvez, para algumas pessoas, uma das últimas tentativas modernas de trocar uma parcela de segurança por uma parcela de felicidade” (OLIEVENSTEIN, 1997, p. 23).
Alguns indivíduos ao se depararem com esta conjetura social buscam pela via da adição às drogas, uma forma de lidar com este mal – estar social. Para Kalina (2001, p.16) “(…) na antiga Roma, quando um sujeito não podia pagar sua dívida, entregava sua vida como adicto, ou seja escravo, e, assim, saía de sua condição de devedor, triste paradoxo”. Complementando a etimologia da palavra, Maia (2005, p.77) refere:
O adicto é uma figura de linguagem que, no âmbito social, diz respeito a esse ser guloso, impaciente, irritadiço, que precisa ingerir qualquer coisa – sapatos, bebidas, carros, roupas, imagens televisivas, viagras, lexotans – para aplacar seu mal-estar.
Essa forma de vida pode ser regida pelas impulsões sejam elas por jogo, sexo, trabalho, comida, drogas lícitas e ilícitas, etc. Por impulsão pode-se entender uma ação na qual há uma necessidade de realização que se impõe insistentemente à consciência e cuja realização produz prazer aliviando, assim, a ansiedade. Caso falhe em sua realização a ansiedade torna – se crescente ao indivíduo, sentindo – se compelido a realizar determinada ação com vistas a reduzir a tensão, aliviando – a, pelo menos por um breve período de tempo (CAMPBELL, 2009, p. 148).
Vale lembrar a disponibilidade e o fácil acesso às drogas e aos medicamentos, nos dias de hoje, também outras formas de condutas adictivas. Para Kalina (1988, p. 42):
[…] as pessoas com diferentes patologias poderão usar drogas, se existe a possibilidade de acesso a seu fornecimento. Onde esta alternativa não existe, a pessoa poderá desenvolver outras condutas adictivas, como ao jogo, ao trabalho, á comida, á aquisição de objetos, etc., mas não uma drogadicção ou farmacodepedência.
Tendo em vista esses aspectos e as demandas constituídas pelo poder das propagandas ao mostrarem pessoas com corpos esbeltos e atléticos, belos sorrisos, possuidoras dos bens de consumos mais cobiçados como carros potentes, casas luxuosas, roupas de marca, que fazem viagens a lugares paradisíacos e usufruem dos pratos mais exóticos e saborosos, enfim, gozando dos melhores prazeres da vida, tornam – se num apelo no qual a infelicidade não cabe.
Uma bela jogada de marketing e os meios de comunicação são eficazes na divulgação dos bens de consumo, com suas propagandas “recheadas” de mensagens subliminares, praticamente induzindo ao consumo, ou então, desencadeando no sujeito a necessidade por carro, roupa, comida, bebida e diversos outros produtos que nem sempre são tão necessários. Segundo Garcia (1997, p.25) “aceita – se como realista visões provenientes da mídia sensacionalista, perpetuando uma situação de alienação no consumo”.
Podemos nos perguntar o quanto basta para saciar esse(s) desejo(s)? Ou quanto se alcança da completude, em se tratando de bens de consumo? Qual o objeto máximo a ser alcançado em uma sociedade que nos oferece tanto?
Na Pós – modernidade, somos eternamente candidatos a algo: ao corpo perfeito, ao emprego perfeito, ao status, á mulher, ao homem. Tal eleição jamais chegará. O ideal pós – moderno de subjetividade implica em sermos ou estarmos eternamente insatisfeitos, ávidos por consumo. Veicula-se, desde a sociedade de consumo, um ideário de prazer que em nada serve para saciar a necessidade de prazer do cidadão comum. Tais ideários, outrossim, servem para manter os indivíduos em eterno estado de insatisfação (MAIA, 2005, p. 77).
Freud, em o Mal – Estar na Civilização (1930, p.84) ao fazer uma referência à felicidade, afirma que: “O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica”.
O homem não admite o que vai contra sua felicidade/prazer, estando sempre em busca do alívio imediato ao descontentamento/desprazer, buscando manter afastado de si o sofrimento ou os aspectos causadores desse sentimento. Sendo o que rege o propósito da vida é o princípio de prazer. Segundo Freud (1930, p. 84):
[…] apresenta dois aspectos: uma meta positiva e uma meta negativa. Por um lado, visa a uma ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, á experiência de intensos sentimentos de prazer. Em seu sentido mais restrito, a palavra ‘felicidade’ só se relaciona a esses últimos. Em conformidade a essa dicotomia de objetivos, a atividade do homem se desenvolve em duas direções, segundo busque realizar – de modo geral ou mesmo exclusivamente – um ou outro desses objetivos.
A lógica cultural da atualidade é suprimir o desprazer a qualquer custo, sentimentos como angústia, tristeza não são tolerados, devendo ser banidos de imediato, sejam através de ingestão excessiva de alimentos, remédios, drogas ou algum outro componente capaz de afastar o sofrimento ou pelo menos aliviá – lo, e, de preferência, que seja imediatamente, para que não gere maiores ‘turbulências’ para vida do indivíduo. Pode – se pensar que na atualidade há uma homogeneização dos modos de gozo, um gozo universal, utópico.


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