Na relação dual entre o indivíduo e sua droga de preferência, constata-se inicialmente uma relação de amor, amor pelo objeto – droga. Assim como nas paixões tão evidenciadas pelos filósofos, nas quais, o amor exacerbado, louco, excitante, causa um sentimento de completude, de êxtase e de felicidade. “Sabemos que no caso do toxicômano, este constrói seu duo indissolúvel com a droga, que é uma amante, cheia de exigências” (OLIEVENSTEIN, 1985, p.128).
Para Sissa (1999, p. 30) “Não existe nada mais, além disso, a droga é o único objeto de cobiça, a única causa de desejo”.
Ao evidenciarmos o amor com que o toxicômano se relaciona com sua droga, esta, que lhe proporciona sentimentos dos mais diversos e prazerosos tais como: euforia, plenitude, felicidade e gozo. Freud em sua obra enfatiza o modo operante das substâncias químicas sobre os indivíduos.
O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia da libido (FREUD, 1930, p.86).
Não podemos nos colocar em uma posição “politicamente correta” e negar o prazer que o drogado sente ao possuir, “encher – se” de sua droga. Como negar algo que lhe faz sentir – se bem? Apaziguando sua relação com o mundo, anestesiando seu mal – estar. É fato constatado que a droga lhe preenche vazios, o completa, ameniza seus problemas e dificuldades, tamponando a falta, exposição tão comum no relato de pacientes adictos em tratamento.
Esta relação indivíduo – droga tem um início, visto que não é da noite para o dia que o indivíduo acorda sendo toxicômano, muitos demoram pouco tempo até perceber sua doença, outros demoram meses, anos para conseguir perceber – se como um adicto. Para Sissa (1999, p. 22):
O principiante cai na armadilha de sua sensação de autodomínio. Um domínio cuja única prova decisiva – interromper um uso que se faz regular – está sempre projetada no futuro, enquanto que dissimuladamente um dia – a – dia novo estrutura – se na reiteração de um presente agradável.
Muitas vezes o primeiro encontro se dá de maneira, despretensiosa, por curiosidade ou por uma oportunidade de ver “qual é”, “qual o barato”, “qual é o toque (efeito)”. No início é um mero experimentador da “química da felicidade”.
Ao início, que não passou de uma contingência, segue – se um período de felicidade e de busca repetida do prazer. Uma busca recompensada generosa e positivamente. A descoberta da euforia, da distensão, de uma plenitude vital inesgotável, leva tudo naturalmente a transformar o encontro em compromisso que se cumpre com pontualidade, sem atraso, e que corresponde inteiramente á expectativa (SISSA, 1999, p. 19 – 20).
Ao passo que o indivíduo vai muitas vezes passando a fazer uso esporádico, mensal, semanal ou mesmo partindo de uma “escalada” das drogas lícitas para as drogas ilícitas, digamos um “uso recreativo” de tais substâncias.
No momento que o uso passa a intensificar – se, o sujeito acredita que possui o controle da situação, que está cômodo, verifica – se que este gesto (uso de substâncias) passa a tornar – se repetido, tornando – se rotina e, por fim, passa a ser automático a ele, passa a perceber que aquele “calmante”, “aquela dosinha”, não são mais suficientes para causar aquela primeira sensação de prazer, de completude, e lhe proporcionar horas de beatitude intocável. Adquirindo assim tolerância à droga, onde uma dose igual não produz mais o efeito desejado de outros tempos, ou do primeiro encontro, tendo assim que intensificar a dose ou o período de tempo entre as doses, onde eram antes esporádicos, episódicos, passando a ser frequentes.
Segundo Sissa (1999, p.24) “o gozo não vem como suplemento, para intensificar e aumentar um humor médio possível de outra forma, não serve mais para melhorar a normalidade”.
Ao passo que a Toxicomania vai se evidenciando, o sujeito chega a utilizar a droga não mais como algo para aliviar suas angústias ou em busca do prazer, passando a consumi-la com a finalidade de aliviar o desprazer causado pela cessação da droga, caso que se apresenta quando o indivíduo fica um determinado período em abstinência, passando à síndrome de abstinência, gerando assim uma série de sintomas desagradáveis ao indivíduo.
Assim chegamos ao ponto crucial, onde o indivíduo passa, de forma maníaca, a utilizar a droga não mais como uma diversão de final de semana, deixando de “ter o controle” sobre o uso, e sim criar um “laço” com a substância, o laço do amante com o objeto amado. A amante “cachaça” ou a amante “cocaína”, passa a ser o único objeto de demanda do sujeito.
No percurso até chegar a constatação de toxicomania, podemos correlacionar com o exemplo de uma cobra prestes a dar o bote em sua presa, aproxima -se sorrateira e silenciosa para não espantar sua presa. E quando esta menos espera, a cobra parte para o ataque, dá seu bote fatal, envolvendo sua caça até a morte.
Situação similar às recaídas e lapsos que tais pacientes enfrentam durante o processo de tratamento, ao tentar deixar a droga, mas sempre ou na maioria das vezes acabam surpreendidos, onde se dá o engano no qual o sujeito ao achar que restituindo o objeto aplacará a falta. Segundo Fonseca (1998, p.192), ao fazer uma breve referência à pulsão enfatiza:
A pulsão visa a repetição, visa sempre este reencontro fracassado com o objeto, é aí que ela se satisfaz. Isso demanda dentro do sujeito, faz pressão e no tatear da falta, retorna com outro significante, que reafirma a falta, fura o sujeito, determinando a zona erógena, ou seja, é uma demanda que se renova na busca desta restituição. Mas não restitui o objeto; restitui a falta.
Neste momento o indivíduo está imerso e intoxicado pelo significante droga, emergindo daí o Toxicômano. Ao descrever o dilema encontrado pelo adicto:
Assim de uma maneira extrema, o indivíduo é e não é, vive e não vive. Transfere a vida para mais tarde e como compensação, exige sensações que sejam imensas. É em seu corpo e através deste que vai tentar consegui – las primeiro. E é verdade que o corpo é o único obstáculo para o desespero. Este corpo, porém costuma tornar – se objeto e, ás vezes, até venal: após ter sido instrumento de vida e prazer, passa a ser um obstáculo, pois não é capaz de gerar a plenitude (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 123 – 124).
Segundo Fonseca (1998, p. 195) “O toxicômano faz a droga. Reduz o sempre perdido ao seu traço, fazendo existir o perdido e completando o Outro”.


Deixe um comentário