A Drogadição é um assunto de grande repercussão em nossa sociedade, desde os tempos antigos, e que atualmente vem tomando proporções gigantescas e danosas em nosso meio social, cultural, familiar e, porque não, econômico. Para Kalina (1988, p. 11) “As pressões sociais, as crises sócio – político – econômicas; o estresse chega a todos, e as deformações ou transformações psicopáticas dos valores éticos também”.
A cultura contemporânea não oferece o anteparo simbólico necessário para que o eu se sinta em harmonia com o seu próprio corpo e subjetividade; pelo contrário, devolve – lhe a culpabilização pela falência própria em não atingir os modelos veiculados pelos simulacros tecnológicos do ideário contemporâneo (MAIA, 2005, p. 87).
Ao passar para uma análise do contexto social no qual a droga faz parte, como um produto deste meio.
Enquanto perversão sexual, que quer dizer sexualidade parcial, não plena, ainda engatada, sem elasticidade, em fases de desenvolvimento infantil, a alienação social, que reclama pela formação de loucos e de adictos, se organiza a partir da defesa contra a dor, contra o sofrimento que o amadurecimento exige. Adicção, consumismo e sexualidade capenga, sem plenitude, sem encanto, congraçam – se no mesmo tédio amargo em que o homem dos nossos dias tende a se afundar (KALINA; KOVADLOFF, 1980 p. 9).
A droga assume um papel na economia mundial tendo em vista o seu mercado, que por sua vez é muito rentável. Tanto que no ranking econômico mundial o tráfico de drogas ocupa o segundo lugar, somente perdendo para indústria armamentista. Com base nesse dado, pode – se verificar a amplitude e complexidade deste assunto.
Um exemplo muito claro disso é o espaço ocupado pelas propagandas de drogas lícitas, utilizando, como exemplo, o álcool que é exibido em qualquer lugar e disposto ao alcance de todos nessa sociedade. Nas propagandas aparecem jovens e adultos, sem distinção de sexo e idade, extremamente saudáveis, com corpos esbeltos aproveitando os prazeres da vida, esbanjando alegria e felicidade, em festas, bares ou até mesmo na praia, com a bebida alcoólica ao lado para deleite de todos.
Mas por trás das mensagens subliminares ou não, o aviso: “Se beber não dirija” e “Beba com moderação” não poderia faltar a mensagem de cunho moral.
Desde vários pontos de vista a droga deixa através da mídia suas marcas e suas seqüelas. Representações perpassam o imaginário dos cidadãos a seu respeito. Dos ‘paraísos artificiais’, passam a ‘demônios do mal’. Suas conotações variam como variam as perspectivas daqueles que buscam compreende – las (GARCIA, 1997, p. 25).
E não paramos por aqui, pois as empresas do ramo acabam patrocinando os jogos esportivos, inclusive com atletas fazendo propagandas de bebidas alcoólicas o que as tornam um tanto contraditórias.
“O que os aproxima é a busca do prazer imediato, a curto prazo. Ele compra não apenas um produto, mas um estilo de vida implícito, onde ao lado de drogas hoje se vende a imagem valorizada do sucesso e do poder” (GARCIA, 1997, p. 29).
Em contrapartida o governo realiza e gasta com campanhas que combatem este mesmo mal. Mas as propagandas de bebidas alcoólicas não cessam e aparecem nos mais diversos horários, seja de manhã, à tarde ou à noite. Nestes horários alcançam à totalidade do público. Para Kalina (1988, p.11):
Pois bem, se o álcool, o tabaco, a cafeína e uma grande quantidade de psicofármacos, altamente adictivos e perigosos para a saúde, são utilizados, propalados, e inclusive idealizados até limites insuspeitados, e se sua comercialização, legal e ilegal, conta com a cumplicidade de todos, não é possível e, sim, ingênuo da nossa parte acreditar que no mundo juvenil isto não devesse ocorrer.
Segundo o mesmo autor ao mencionar a influência das drogas lícitas e ilícitas em nossa cultura enfatiza:
Como vemos, a história das drogas volta a repetir-se, porém agravada. E também o componente sócio – político, pois assim como o álcool foi usado enquanto instrumento deteriorador de muitas civilizações para permitir a colonização (exemplo: a conquista do Oeste dos Estados Unidos), a maconha, enquanto tranqüilizante, serviu para acabar com a rebelião juvenil dos anos 60. Além disso, se continua “fazendo vista grossa” sobre seu uso abusivo e suas conseqüências, “talvez” pela impossibilidade que têm os governos atuais para canalizar positivamente a explosão demográfica juvenil e suas conseqüências econômicas e psicossociais (KALINA, 1987, p.31).
A partir da segunda metade do século XX, houve a grande disseminação das drogas, através da Contracultura, aproximadamente nos anos 60, com a música, os movimentos estudantis e o movimento hippie, visando o pacifismo e reagindo contra a guerra do Vietnã. Conforme Velho (1997, p. 11):
As características básicas da Contracultura giravam em torno de uma rejeição crítica radical do establishment. Sua originalidade residia na ênfase que dava ao aperfeiçoamento e liberdade individuais associadas a preocupações sociais mais ou menos sistemáticas. É nesse quadro que se desenvolveu um modo específico de uso de drogas.
Encontramos nessas manifestações populares apologias visando sua legalização, em letras da música que falam sobre as drogas, em artistas tais como Jimi Hendrix, Bob Marley; na literatura em autores como: Aldous Huxley em seu ensaio, “As portas da percepção”, entre outros fatos e situações, em que, de uma forma ou de outra, a droga chega aos nossos ouvidos ou mesmo em nossas casas sem mesmo nos darmos conta disso. Para Melman (2000, p.117):
A toxicomania assinala uma mutação cultural. Pela primeira vez no mundo judaico – cristão, vemos contestado, em uma larga escala, o lugar tradicional que fazia do gozo sexual o referente obrigatório e também o referente de subordinação dos outros gozos. Esta subversão vale pelo menos para a camada jovem da população, que denuncia o fenômeno de ruptura que presenciamos. O caráter traumático é acentuado pelo silêncio ideológico. A falta de uma filosofia ou de uma sabedoria que o justifique revela o desinteresse para com a troca social e mesmo pelo diálogo interior. Como a arte que leva o mesmo nome, o fenômeno se apresenta bruto, sem preocupações com o olhar.
Abordar a questão da toxicomania é algo complexo e denso, pois esbarra na dificuldade de apreensão desse fenômeno que ultrapassa o âmbito dos conflitos psíquicos individuais, tanto quanto os interesses comerciais, econômicos ou sociais, no qual o Toxicômano não somente é uma vítima passiva deste contexto, mas está em franco processo de “interação – condensação” entre estes diversos fatores aqui expostos. Para Ribeiro (2009, p. 24):
Da complexidade deste fenômeno fazem parte, tanto as ideologias que embasam os objetivos e efeitos do progresso da psicofarmacologia, que fazem com que, atualmente, qualquer mal – estar ou sofrimento psíquico seja medicado, quanto às novas e múltiplas modalidades de consumo de drogas, lícitas e ilícitas, voltadas, seja à diminuição de tensões e ansiedades, seja no aumento da vitalidade.
Nesta ideologia atual podemos contrapor o discurso da ciência e da religião, onde ambas convergem no sentido de dar alguma significação seja de cunho moral ou espiritual, propondo princípios ordenadores para tal fim. Fazendo a separação do que é normal e do que é patológico, do moral e do imoral. Segundo Ribeiro (2009, p.24):
É interessante notar que, ao contrário do que aconteceu na passagem para a modernidade, quando a Igreja considerava qualquer droga como “coisa do demônio”, e a ciência nascente assumia a posição contrária, apostando na autonomia das consciências e no progresso científico – tecnológico, contemporaneamente se estabelece uma aliança no sentido de condenar e combater o uso não–controlado de drogas, sendo que a religião reivindica um controle moral, enquanto a ciência, um controle a ser exercido a partir de conjuntos de saberes/poderes que operam sobre sujeitos e corpos.
A Toxicomania no contexto social atual demonstra ou traz à luz, o que antes estava opaco em nossa sociedade, talvez algo similar à história da loucura, no qual Foucault refere o ponto em que a loucura deixou de ser algo temível, tornando – se objeto, mas com um estatuto singular:
antes ela designava no homem a vertigem do deslumbramento, o momento em que a luz se obscurece por ser demasiado brilhante. Tendo – se tornado agora coisa para o conhecimento – ao mesmo tempo o que há de mais interior no homem, porém de mais exposto a seu olhar – ela representa como que a grande estrutura de transparência; o que não significa que pelo trabalho do conhecimento ela se tenha tornado inteiramente clara para o saber, mas que, a partir dela e do estatuto de objeto que o homem lhe designa, ela deve poder, pelo menos teoricamente, tornar – se inteiramente transparente ao conhecimento objetivo (FOUCAULT, p.456-457, 2000).
Algo análogo pode-se pensar em relação às toxicomanias contemporâneas ou mesmo em relação ao discurso da ciência, onde intensificou – se o debate e as formas de abordagens contra a drogadicção. Seus efeitos sobre a mente, sobre o corpo, no aspecto social, familiar, tomando um espaço significativo na contemporaneidade, mas ao mesmo tempo algo tão difícil de ser debatido ou mesmo compreendido assim como também o foi a loucura em outros tempos.
Contrapor toxicomania e loucura, dois temas densos e que possibilitam os mais diversos enfoques na tentativa de abordá-los, para Foucault:
é essencial para a possibilidade de uma ciência positiva do homem que exista, do lado mais recuado, esta área da loucura na qual e a partir da qual a existência humana cai na objetividade. Em seu enigma essencial, a loucura espreita, sempre prometida a uma forma de conhecimento que a delimitará inteiramente, mas sempre distanciada em relação a toda abordagem possível, uma vez que é ela que originariamente permite ao conhecimento objetivo uma ascendência sobre o homem (FOUCAULT, p.457, 2000).
A loucura está relacionada com a civilização desde seus primórdios, a figura do louco causou, e ainda causa, espanto, apresentando – se como uma quebra no sentido moral; aquilo que abala e choca nosso meio social repressor. Assim, como a Toxicomania é relacionada ao que gera agressão, confusão, apontando as falhas daquilo que é mais genuíno em nossa cultura. Talvez essa seja a linha, onde elas se convergem, denunciando algo do social. Segundo Kalina e Kovadloff:
Muito embora a loucura constitua uma conduta individual, ela é, como fenômeno, um emergente social, ou seja, tem origem, como qualquer comportamento pessoal, na interação de quem o realiza com determinado meio.A loucura está profundamente enraizada na civilização em cujo nome a combatemos.Tudo o que o meio cultural tem de repressor e de coercitivo desmorona com o aparecimento do ato demente (KALINA; KOVADLOFF, 1980,p. 21).
Com base no que foi exposto até o momento, encontramos algo em comum nos exemplos e situações aqui expostos, ou seja, algo no discurso social contemporâneo, e ao que parece, o uso de substâncias que já se encontrava nos primórdios de nossa civilização, neste momento, “tomou forma” no discurso, a partir do momento que o uso da substância passou para o abuso e, por fim, pela dependência, passando a ter assim consequências para o indivíduo, para sua família e para a sociedade.
Conforme nos aponta Maia (2005, p. 88) “é no intercâmbio entre a cultura (meio ambiente) e o indivíduo que se dão as rupturas traumáticas patogênicas”.
Podemos então considerar a toxicomania como um sintoma social? Visto que abrange vários fatores de nossa sociedade e da cultura contemporânea. Algo está sendo denunciado, aquilo que era visto somente no submundo, nos restos passou a ocupar um lugar no discurso social. Segundo Melman (2000, p. 66):
As toxicomanias são um sintoma social (…) Mas pode-se falar de sintoma social a partir do momento em que a toxicomania é de certo modo inscrita, mesmo que seja nas entrelinhas, de forma não explícita, não articulada como tal, no discurso que é o discurso dominante de uma sociedade em uma dada época. É somente neste sentido que podemos falar de sintoma social.
Ao pensarmos na toxicomania como um sintoma social, pode – se verificar de que forma isto se dá, nas inter – relações, no discurso, na cultura e como isto afeta o laço social. “É absolutamente claro que ele resume este laço social a uma dualidade, à organização de um par mortífero onde o que é claramente buscado de um no outro é a morte juntos” (MELMAN, 2000, p.68).
A partir do momento em que passa a haver a dualidade entre o indivíduo e a droga, há uma “quebra no laço social” assim a relação daquele com a família, os amigos, os estudos, a religião e com o trabalho, passa a ser secundária ou mesmo terciária ou na maior parte do tempo tendo seu tempo ocupado pela “amante” – droga, algo similar ao encontrado em um jovem casal de amantes quando estão apaixonados, onde de certa forma anulam – se, fundem – se um ao outro. Para Kalina e Kovadloff (1988, p. 41):
O toxicômano tem padrões de conduta, necessidades e motivações particulares que entram em choque com as muitas contradições que assolam o mundo atual. Simultaneamente, ele próprio é produto e conseqüência de uma sociedade paradoxal e dividida, que exerce uma influência profunda e direta sobre o núcleo familiar do qual ele provém.
Sendo o laço social algo que articula o discurso do sujeito, advindo assim sua subjetividade, vejamos o que Melman expõe em sua obra:
Lacan mostra bem que não há subjetividade que se organiza fora do laço social, posto que os discursos não são senão o fato de ser a subjetividade articulada no laço social ao mesmo tempo em que ela o articula (MELMAN, 2000, p. 42).
Pensando na toxicomania no contexto social e assim interacional, onde este grupo é visto de forma excludente assim como tantos outros, a exemplo dos homossexuais, portadores do vírus da Aids, para citar alguns exemplos, aponta Olievenstein (1997, p.21):
Não podemos esquecer o fato essencial de que uma sociedade, como um indivíduo, por um lado funciona no real e no imaginário e por outro lado existem limites de tolerância que permitem o funcionamento, lado a lado, de grupos heterogêneos mais ou menos opostos até que se produza uma explosão.
Segundo Kalina (1987, p. 48) “Os dependentes, como todas as minorias, tendem a auto – idealizar – se e a tentar gerar de modo psicótico, a idealização de seu estado por parte dos outros, tal como o fazem os punks, os homossexuais, etc.”. O toxicômano ao buscar seu grupo, substituto familiar, onde ele está autorizado a utilizar sua droga e a administrá – la com seus pares e nesse contexto cria situações propícias para o uso, iremos abordar adiante a questão das condutas exacerbadas destes pacientes, manifestando, através de passagens ao ato, condutas agressivas, fomentando a criminalidade e a delinquência.


Deixe um comentário