Passando para análise da família do toxicômano, vale lembrar que não estamos falando do uso ‘recreativo de drogas’, mas sim de uma conduta patológica, situada no campo das compulsões. Na qual a família também adoece junto com o paciente adicto. Antes de abordar, de forma mais incisiva neste tema, vale fazer uma análise dos primórdios dessa instituição chamada família.
Em tempos remotos o homem passou a perceber que era necessário mais alguém para ajudá – lo em suas atividades laborativas e assim foi sendo constituída a base da família com sua esposa e filhos e estes o ajudando em seu trabalho. Segundo Kalina e Kovadloff (1980, p.47) “O pai ofereceu ao filho uma identidade uma identidade profissional que foi, ao mesmo tempo, identidade pessoal”.
Com a transmissão do ofício teve lugar, ao mesmo tempo, o ensino dos critérios que garantiriam a continuidade da vida, individual e social. Por isso, os estados respaldaram constitucionalmente os privilégios da figura paterna: eles respondiam ao poder real que tinha o pai como fator de continuidade da estabilidade social (KALINA; KOVADLOFF, 1980, p. 47).
Segundo Freud (1930, p.106) “A vida comunitária dos seres humanos teve, portanto, um fundamento duplo: a compulsão para o trabalho, criada pela necessidade externa, e o poder do amor”. O mesmo autor enfatiza: “[…] fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual – a mulher – e a mulher, em privar – se daquela parte de si própria que dela fora separada – seu filho”.
Podemos verificar que, tanto na Idade Média como na Idade Moderna, a função do pai como organizador instituiu-se a partir da sua função simbólica para família e, posteriormente, para a sociedade. A figura do patriarca, embora diferente de outras épocas, devido aos percalços civilizatórios pelos quais temos passado nos últimos séculos, ainda permanece como referência das normas e leis em nossa cultura.
Todas as demais leis ficam mais ou menos excluídas, se comparadas com a autoridade desta, e isto ainda mais porque no nosso mundo moderno, as diversas “autoridades”, as morais, as psicanalíticas, as científicas e as de identificação estão, ao menos em parte enfraquecidas (OLIEVENSTEIN, 1985, p. 105).
Na família aprendemos a nos relacionar com o outro, através desta nos é passado os valores, o afeto, o amor, enfim, os limites para estarmos no mundo e conviver com os outros seres humanos, sendo esta o pilar da sociedade. Podemos entender a família como um microssistema social, compondo assim o macrossistema, ou seja, a sociedade.
A família, segundo o modelo tradicional, os seres humanos nutrem-se no aspecto afetivo, na qualidade dos objetos referentes ao amor parental, onde a carência de amor é a única necessidade que temos que é impossível de ser substituída, diferentemente das nossas necessidades físicas e alimentares que podem ser saciadas de alguma forma (KALINA, 1988, p. 26 – 27).
Ao fazer uma breve referência à teoria dos sistemas, buscando uma compreensão das relações familiares e a forma como este processo opera, tendo como base as inter-relações entre os membros de uma família, Olievenstein (1985, p. 107) nos diz “[…] se recorremos por comodismo á noção de sistema (por exemplo: sistema familiar), trata – se de um sistema flexível, variável, móvel, caótico, difluente, não constituindo jamais um modelo repetitivo”.
Temos dois modelos predominantes na ordem familiar: as famílias simbióticas e as cismáticas. Podemos entender por famílias simbióticas as famílias nas quais há uma falta de limites entre o eu e o outro, neste sistema todos estão envolvidos na vida de cada um, algo sem limites, entre homem e mulher, adultos e crianças, jovens e velhos, mundo externo e mundo interno e onde ocorrem as inversões dos papéis. Predominando um modelo de interações narcisistas.
Já nas famílias cismáticas, ocorre o oposto, havendo uma dificuldade na interação entre seus membros, onde dificilmente permite-se compartilhar de uma conversa, sem que haja uma discussão ou desentendimentos, evitam o “grude”, utilizando uma forma de inter – relações dual, onde um terceiro é evitado ou desprezado (KALINA, 1987, p. 50).
Com o passar dos séculos a família foi passando por algumas modificações, o pai perdendo seu valor simbólico, a mãe passando a ingressar no mercado de trabalho, casais de homossexuais adotando crianças, mães solteiras, divórcios, barrigas de aluguel entre outras situações tão comuns em nosso tempo. Percebe – se que este conjunto de situações faz com que haja também uma certa modificação do conceito simbólico da família como instituição. Segundo Olievenstein ao mencionar o impacto da contemporaneidade na família:
Pouco a pouco, essas modificações abalam o status da instituição familiar. Assistimos, por exemplo, aos nascimentos de bebês de proveta, ás mães de aluguel e, atualmente, não se pode mais excluir a clonagem das espécies (OLIEVENSTEIN, 1997, p. 19).


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