Homens-Semi-Deuses

Nas últimas décadas, nossa civilização apresentou um salto exorbitante no âmbito das ciências naturais e tecnológicas. O homem passou a buscar, ou para sermos mais pomposos, obter certo domínio sobre a natureza, prova disso é a evolução no campo biológico (células tronco, clonagem, alimentos transgênicos), como no campo tecnológico (computadores, softwares, robôs, tecnologia 3D), na indústria armamentista (com as armas nucleares, capazes de dizimar centenas ou mesmo milhares de pessoas, cidades ou até mesmo países) e mais recentemente estudos buscando simular o efeito do big bang, nos quais a teoria científica defende o surgimento do universo a partir deste fenômeno.

Com esses exemplos podemos concluir que o homem, talvez, na busca de status e poder, reconhecimento, afirmação, dinheiro ou felicidade, brinca de ser Deus, “O todo poderoso”, com capacidade de criar e destruir ou então buscam somente aproximar-se dele.

Esse argumento sustenta que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seriamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos ás condições primitivas. Chamo esse argumento de espantoso porque, seja qual for a maneira por que possamos definir o conceito de civilização, constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização (FREUD, 1930, p. 93).

            E mesmo nestas situações, faz – se necessário questionarmos o que o homem ganha ou busca com isso.  Questionamentos como esses nos fazem pensar no que está em jogo nessas situações? O que faz com que o homem busque exercer o poder sobre a natureza, sobre os outros homens e sobre os objetos?

            Ao traçar um paralelo em sua obra, Freud compara a posição que o homem ocupava antigamente em relação aos seus Deuses, fazendo uma contraposição com a posição atual, após os avanços culturais e científicos.

Há muito tempo atrás, ele formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em seus deuses. A estes, atribuía tudo que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode–se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus (…). O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de “Deus de prótese” (FREUD, 1930, p.98).

            Freud (1930, p.98) ainda enfatiza, como uma espécie de premonição já em 1930, descrevendo o que está ocorrendo agora, em pleno século XXI “as épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus”.

Com o intuito de seguirmos esta linha de raciocínio, o homem almeja em sua busca incessante, uma posição de Semideus, ao cair por Terra sua falsa ilusão de onipotência, ao se deparar com sua finitude, frustra-se com seu potencial meramente humano. Para Kalina e Kovadloff (1980, p.10):

A impossibilidade de manter sob nosso controle tudo o que nos sucede lança – nos na vertigem de um nada que aponta para a vertente do acaso. É aqui que a manipulação tão precisa e exata da ciência moderna tropeça e fracassa.

Podemos buscar as respostas para estas perguntas partindo da questão biológica, onde nosso corpo é semelhante ao de qualquer animal, ou seja, a biologia nos dá um limite, no qual seguimos um ciclo, nascemos, crescemos, nos reproduzimos (ou não) e morremos, sendo este o processo natural pelo qual passa o ser humano durante sua existência. No entanto nossa mente busca transcender estas limitações que nos são impostas pela biologia, na qual a morte, a certeza da finitude é inevitável, fato que nos causa incômodo, nos custa aceitar nossa debilidade, nossas limitações e fragilidades perante o mundo (KALINA, 1988, p. 43 – 44).

Segundo Maia (2005, p. 62) ao apontar as consequências da lógica moderna para o sujeito, “o indivíduo precisa despir-se de suas histórias, identificações e ideais para se tornar mais contingente e flexível e poder, desse modo, ingressar no mercado de consumo”.

Pode – se traçar a partir da relação existente entre o indivíduo e a cultura à qual pertence, enfatizando o quanto este processo civilizatório mantém uma relação causal com o mesmo, contribuindo assim para seu sofrimento neurótico e o quanto é impactante o peso da cultura na estruturação psíquica deste sujeito.

Em cada período da história a sociedade foi se constituindo por um ideário, algo no qual o sujeito tinha um referencial, uma identidade seja herdada ou atribuída, através da herança familiar, um norteador para o indivíduo, ao passo que na modernidade este referencial se perdeu dando lugar a certa quota de incertezas, pois nem as estruturas familiares e muito menos sociais estão sendo continentes, afetando assim a construção subjetiva, terminando em consequências danosas para vida deste.

Este sujeito ao perceber, que está desprovido de mecanismos capazes de lhe auxiliar, devido à falta de identificações, ou mesmo ideais que possam lhe proporcionar certo grau de subjetividade, auxiliando seu self a lidar com as situações adversas, tão presentes em nossos dias. Ao vivenciar as decepções, sofrimentos, desilusões e se sujeitar ao seu potencial meramente humano, causador de tantas frustrações, buscam alternativas nas quais possibilitam uma melhor adequação de seu self, frente aos percalços impostos pela vida.

 Segundo Freud (1930, p. 83), o homem encontra três medidas paliativas como forma de lidar com o mal-estar de viver:

[…] derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável. Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade cientifica constitui também um derivativo dessa espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental. As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e alteram a sua química.

O homem quando encarado como um “não-ser”, ou seja, “coisificado” ocupa uma posição “robotizada” perante a sociedade, uma posição alienada, seja pelo trabalho ou, como mencionado acima, pelas substâncias tóxicas, pois usa estas como um combustível ou mesmo como um antídoto para o seu mal – estar.

“Ao mesmo tempo em que o uso abusivo de drogas é reflexo de uma sociedade consumista, onde o homem é anestesiado a todo instante, esta sociedade, exprimindo – se pelo que não quer ser, o rejeita” (GARCIA, 1997, p. 27).

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